Histórias de fundadores

O que é preciso entender antes de empreender na periferia

Empreendedores Akin Abaz, Aline Landim e Thiago Vinícius em apresentação no palco

Com milhões de moradores, a periferia é um ambiente muito atrativo para se empreender. Porém, montar ou levar o seu negócio para essas comunidades significa também entender suas dinâmicas, seus mercados e suas necessidades.

Os bairros periféricos acumulam não apenas um público consumidor gigantesco, mas também um número imenso de empreendedores que buscam uma chance de conquistar uma renda maior do que dois salários mínimos. Foi o que explicou Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, durante participação em novembro no Campus Presents, no Google for Startups, justamente para discutir o poder de negócios nessas comunidades. “Quanto menor a classe econômica, maior a vontade de empreender”, afirmou Meirelles.

Mas empreender nessas regiões "não é só chegar, entrar e dar o dinheiro. A periferia tem suas gírias, códigos", explicou Akin Abaz, fundador da Infopreta, empresa de serviços em tecnologia com foco em assistência técnica. "Tem gente que gosta de colar na favela quando a cultura já está criada”, disse Thiago Vinicius, cofundador do Banco Comunitário União Sampaio, que oferece opções de microcrédito para a população do Campo Limpo, em São Paulo. Ambos também estavam presentes no Campus Presents.

Para criar um ecossistema de negócios nas comunidades é importante entender suas particularidades. Além de ser parceiro na criação de soluções e condições econômicas para os profissionais autônomos, é preciso promover conteúdos para empoderar trabalhadores locais.

Conhecendo a periferia

"Temos visto, ao longo dos últimos anos, o empreendedorismo como a grande alavanca de transformação nas periferias. Nas favelas, há milhões de pessoas com vontade de empreender. Nós temos de um lado uma riqueza concentrada e do outro uma oportunidade bilionária, aliás, trilionária, nas favelas do Brasil", explicou Renato.

O grupo de empreendedores dessas comunidades é composto principalmente por homens mais velhos e menos escolarizados que a média da população, e que possuem remuneração de cerca de R$2.200,00 mensais. Esse valor já os insere em um posição privilegiada: são considerados a elite da classe C.

Dentro desse grupo, 64% acessam a internet, e isso os dá vantagem em relação aos outros. Em geral, os profissionais autônomos mais conectados têm uma renda 150% maior.

Atuando na comunidade

Quem também participou do Campus Presents foi Aline Landim, idealizadora da Jaubra, aplicativo de mobilidade que atende a região da Brasilândia, em São Paulo. Ela percebeu um potencial econômico em se conectar com as pessoas do bairro e deixou seu trabalho de bancária para criar um novo negócio ao lado do pai, motorista na periferia.

A ideia de elaborar um sistema de transporte em que táxis não entravam foi bem recebida e a fundadora da Jaubra passou a entender a força do impacto que seu trabalho representava. "Quando a gente começa a empreender na comunidade, vemos o mundo de oportunidade que existe no bairro onde moramos", diz.

Falta de oportunidades e discriminação

As classes C, D e E equivalem a mais de 165 milhões de consumidores. No entanto, apesar de configurar a maior fatia do país, essa população não se vê representada nos valores e na publicidade das empresas. Para superar essa distância, Renato acredita que é preciso investir em uma linguagem acessível que gere identificação e reconhecimento, mas que respeite a visão de mundo e as conquistas dessas pessoas.

Outra questão que não pode ser deixada de lado é a falta de oportunidades. “A favela e a periferia são territórios onde a desigualdade se desenvolve no Brasil”, afirma Renato. A questão da raça também entra em jogo, uma vez que nas classes mais baixas a população é majoritariamente negra. “A periferia tem cor e não é branca”, ressalta. Não à toa, 76% dos moradores das comunidades já se sentiram discriminados.

Akin Abaz viveu de perto o preconceito na hora de buscar um emprego. Não foram poucas as vezes em que, à procura de um trabalho na área de tecnologia, ouviu de recrutadores: “você veio para a vaga de limpeza?”. Hoje, na Infopreta, ele faz questão de mudar esse cenário. "A gente sempre contrata pessoas periféricas, porque há uma grande falta de oportunidade", conta Akin, que tem programas para empregar mulheres negras, pessoas trans e outras minorias, e investe em capacitação de ex-presidiárias.

Essa rede de apoio mostra que uma startup na periferia não é apenas um negócio que surgiu para lucrar, mas sim uma forma de levar oportunidades profissionais e de transformação para a região. "Quando a gente descobre que é uma empresa de impacto social, que começa, com os feedbacks dos nossos clientes, a entender a mudança que causa na vida deles, a gente entende o que realmente é impacto e começa a ver a importância do seu serviço", diz Aline.

Por isso, ao empreender na periferia, é fundamental entender que você e sua startup estarão em um plano privilegiado para colocar essa população em uma nova posição de evidência. "O empreendedorismo causa um impacto, que é tirar nossa comunidade das páginas policiais e ocupar as páginas culturais e econômicas", afirma Thiago Vinicius.

Saiba mais sobre o Instituto Locomotiva, a Infopreta, a JaUbra e a Agência Solano Trindade

Categorias:

América Latina